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A sociedade da informação: o fluxo das ideias livres X quem vai pagar a conta

Por em 23 jan 2014 em Marcador | Sem comentários

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É difícil acompanhar a velocidade da Internet e o que ela proporcionou à humanidade. Muitas pessoas não tem se encaixado neste novo modo de fazer as coisas. Muitos porque já tem a “vida ganha” com sua forma antiga de fazê-las. Outros porque simplesmente não se encaixaram ou não gostaram e preferem ficar voluntariamente excluídos. E muitos outros que ainda não tem acesso por exclusão digital pura e simples: altos preço do acesso, falta de equipamento, etc.

De uma forma geral todas as pessoas já são impactadas pela vida online. Seja por notícias que chegam a elas indiretamente, por netos que vivem no celular, porque elas mesmas já experimentaram, porque já pediram para alguém comprar algo para elas na internet ou elas mesmas já realizaram um negócio online. Ou usaram para se comunicar com outras pessoas. Ou para buscar uma resposta a uma necessidade de informação. A vida online é uma realidade. Muitos órgãos do governo já não tem mais atendimento presencial, apenas realizam suas tramitações online.

Nesta curvatura de aprendizado, muitos passaram a usar a internet na esfera social, se relacionando com outras pessoas. Muitos serviços gratuitos, tentando prestar um serviço ao usuário foram criados, na esperança de lucrar com a presença massiva de usuários e vender publicidade. Este é o negócio básico destas empresas: lucrar através de um serviço gratuito com a exposição de publicidade: a TV e mídias antigas nasceram e sem mantém por esta premissa. Na internet, o modelo de negócio se baseia em informação, a cada dia aprimoram mais as formas de captar dados dos seus usuários e é ai que entra um dos maiores aprendizados das pessoas: como estes dados serão utilizados?

As pessoas que se excluem digitalmente por vontade própria sabem responder esta pergunta de forma simples: não entre lá se não quer seus dados invadidos. Mas e quem continuar lá? Há solução de se estar na internet e ter seus dados um pouco mais privados? Os que se rendem à internet dizem: “se está na internet qualquer um tem acesso quando quiser”. Sim, é como sair na rua, se você está na rua não tem como querer esconder totalmente sua presença, ninguém é invisível, isto não significa que existam na rua pessoas tirando fotos suas ou filmando você o tempo inteiro (pelo menos cidadãos comuns), bisbilhotando o que você carrega nas mãos e bolsos, querendo saber a cor de suas roupas íntimas, ou seja, parte-se do princípio que sua privacidade ao se deslocar pelas ruas é minimamente respeitada e muita gente nem tem interesse em sua presença… Ou seja, neste quesito a internet é ainda uma terra sem lei, onde há muito interesse em saber quem você é e como utilizar esta informação para lucrar.

Mas precisamos de uma lei para a internet se já temos leis antigas que contemplam a vida online? Precisamos decidir sim sobre o Marco Civil, no Brasil, para que isto não seja ditado por lobbys de empresas interesseiras, uma vez que cedo ou tarde, alguma lei será votada e é melhor que o povo esteja envolvido no processo, não só porque o governo o conclamou, mas porque se interessou pelo assunto. O Marco Civil irá ditar algumas regras sobre como as empresas deverão se portar com os dados das pessoas e a lei brasileira prima pela privacidade.

Ou seja, se o povo estiver envolvido no processo, poderá dizer o que acontece quando alguém se retira de uma grande ou pequena rede social, o que deve acontecer quando ela pede para as empresas deletarem sua conta e dados para que não fiquem em um local que ela não utiliza mais, poderá ditar sobre o que acontece quando estas empresas quebram estas leis, poderá dizer o que acontece com quem invade seus dados, o que é crime e qual a condenação. Poderá ditar que coletar indiscriminadamente dados sem autorização ou com autorização parcial pelo prol do lucro puro e simples é crime. E assim por diante. E o povo envolvido poderá rechaçar leis que privilegiem empresas.

E mesmo que as pessoas não queiram se importar muito com isto porque acreditam que por não estarem no Facebook, estão com seus dados fora da internet, o assunto é MUITO mais profundo que o Facebook. Se você tem um celular com Android ou IOS (Iphone) ou um tablet com um destes sistemas, quando você compra ele precisa logar com uma conta do Gmail ou criar uma conta na Apple Store e pronto! Toda sua vida “privada” está sendo compartilhada com as empresas detentoras destes softwares. Se acha que seus dados estão protegidos porque só usa Windows, se você tem internet, eles sempre estiveram expostos. Se acha que seus dados estão seguros porque não usa absolutamente nada disso, se tiver uma linha telefônica hoje, seus dados pessoais e todas suas ligações podem ser monitoradas pela internet. E o que dizer dos satélites espiões? Não vamos aqui alimentar a teoria da conspiração da vigilância total. É apenas uma realidade que a vida online existe hoje em algum grau e não há como fugir disso, e que em algum momento iremos querer nos beneficiar das facilidades da tecnologia, por mais que fujamos disso. Melhor que participemos da formação de leis para proteger um pouco a privacidade de todos, pois ela sempre será necessária, é um bem público. Se existirem leis limitando o que cada empresa pode fazer com estes dados, mesmo que elas os acessem, haverá maior proteção se eles vazarem e condições dos usuários acionarem as empresas judicialmente.

A segurança dos dados é outra história. Ai a invasão normalmente é criminal. Seja por confiarmos em alguém de nosso círculo social e aquela pessoa vazar os dados por algum tipo de vingança ou seja por invasão de hackers e vírus. Seja por spammers conseguirem nossos emails e entregá-los a espalhadores de vírus. Já há leis para isto, mas especificar melhor e tipificar crimes nunca é demais.

E com certeza, há que ficar esperto, porque há lobbys nas leis de internet que cada país está tentando aprovar, para tentar privilegiar serviços e torná-los pagos. Por exemplo, um dos mais polêmicos é sobre o direito das empresas como o Google poderem privilegiar tráfego de sites. Neste caso, se o Google for pago por empresas, entregará estes sites mais rapidamente, então a velocidade de sua internet pouco importaria para melhorar o desempenho, quem ditaria seria o Google através de seus Softwares e tecnologias que está implementando para “criar uma internet mais rápida”. Realmente a tecnologia que eles estão criando fará uma internet mais rápida, mas como é via software, eles deterão o tráfego da internet nas mãos, é algo parecido com a Monsanto registrar as combinações moleculares do arroz, onde somente ela poderia dizer quem pode plantar arroz porque ela criou aquela semente e a semente original “sumiu” do mercado. No caso do Google, é a mesma coisa, eles criam uma forma de melhorar o tráfego, mas como detém a tecnologia que realiza esta rapidez, passam a ditar como ela será distribuída. E claro que o Google tem milhares de formas de lucrar com isto: uma é privilegiando quem paga para entregar mais rápido, outra é criando serviços pagos de “internet + rápida” para usuários adquirirem. Então além de tudo que temos atualmente, teríamos que provavelmente pagar por um “turbo” do turbo. Ou mesmo que este serviço substituísse os atuais, já não é mais somente acesso à internet e velocidade que se está adquirindo, mas também velocidade ditada por terceiros do tráfego e o que é pior, pagando ao Google para privilegiar quem paga a ele para ser mais rápido, é como contratar TV fechada e ter que assistir a 20 comerciais nos melhores programas, coisa frequente neste meio.

E você acha que é somente isto? Alguns vão dizer: nossa, quanta coisa. Quem já vive a muito tempo online não vai se admirar do que vem acontecendo com a busca na internet. O Google tem criado filtros regionalizados e de acordo com seu perfil. Parece a “descoberta do fogo”, mas já há estudos questionando esta filtragem. A filtragem, quando estudada do ponto de vista de programação e do que entrega para os usuários, parece perfeita: ela vai entregar resultados de acordo com seu perfil pessoal, o Google vai te entender e te ajudar. Mas há sérios problemas nisso. Nestes dois artigos, O Filtro Invisível do Blog do Cappra e O Lado Obscuro do Google pelo Arquitetura da Informação resumindo o excelente estudo original de José Fernandes, está muito bem aprofundada a questão, e depois que nos inteiramos do assunto, a primeira pergunta que vem, devido ao tamanho do Google e da importância em nossas vidas hoje: há opções a ele? Pois é, o artigo até lista umas duas ou três opções, mas elas só conseguirão se manter SE as pessoas se ligarem neste assunto e buscarem alternativas de vez em quando. Se todos continuarem no Google mecanicamente e sem reflexão, quem ditará o que vamos encontrar e ler na internet serão empresas: e o que empresas querem é lucro, então liguem os pontos de como será a busca no futuro…

Resumindo os artigos mencionados, por mais que o Google queira filtrar uma busca de acordo com sua regionalização e perfil pessoal, porque a cada dia que passa ele conhece mais você, pense na seguinte afirmação do artigo O Lado Obscuro do Google:

“Antigamente qualquer pesquisa retornaria páginas da web com a sequência de letras que combinavam com os termos buscados. Hoje o Google faz uma busca semântica, ao pesquisar “Museu de Nova York” ele vai procurar as entidades que ele reconhece como museus e que estão localizados dentro da região geográfica com o nome de Nova York. Para fazer isso, os computadores que executam a pesquisa devem ter alguma noção do que é um museu, o que é Nova York e como eles estão relacionados. Os computadores devem possuir este conhecimento e utilizá-lo para fazer um julgamento.

 Um problema se torna aparente se mudarmos o exemplo de “Museus de Nova York” para “Províncias da China”. Taiwan é uma província? Esta é uma questão controversa e na pesquisa semântica essas decisões não são baseadas em estatísticas, mas em um modelo de mundo. Que tal uma pesquisa por “ditadores do mundo”? Aqui os resultados, que incluem uma lista de ditadores famosos, não são apenas o julgamento sobre se uma determinada pessoa é um ditador, mas também um julgamento implícito, na escolha de exemplos individuais do próprio conceito de um ditador. Ao construir o conhecimento de conceitos como “ditador” em nossos meios de buscar informação, estamos implicitamente aceitando um conjunto de pressupostos.”

Isto significa que o Google passa a ditar, por regionalização, cultura e conhecendo o perfil pessoal, ou mesmo como no exemplo da busca por “ditadores do mundo”, ele é quem dita o que isto significa. É óbvio que uma pesquisa realizada no Brasil, nos EUA ou no Egito, terá resultados completamente diferentes. Imagine um chinês buscando a respeito no Google, mas que esteja na China, o conceito que ele receberá será o conceito que o Google quer entregar a ele, que com certeza será o conceito ocidental. Assim, se ele cresceu com outras ideias, algumas equivocadas sobre o assunto e outras talvez culturalmente certas, aqui o certo e errado pouco importa, o único que ele estará recebendo é o significado de acordo com os interesses do Google, que não deixa de ser outro lado de uma mesma moeda que já o oprime. Ou seja, a livre crítica individual fica prejudicada, porque ele sempre será direcionado a escolher lados e não a fazer sua crítica individual e tirar suas conclusões. Alguns diriam que somos livres para tirar as conclusões, sim, somos, mas a discussão aqui é em quem dita o fluxo das informações na internet e como utiliza isto para qualquer interesse político, manobra de massas, conceituações, etc. É como se uma empresa ditasse o fluxo dos rios, a direção dos ventos, a quantidade de ar ou energia solar, etc.

No final das contas, é difícil reunir uma história da internet que pinte um quadro que nos permita refletir em pouco tempo a respeito. É uma discussão que levará anos e estará constantemente mudando, para pior ou melhor, de acordo com os interesses coletivos e em continua guerra com interesses particulares. Não é de hoje que se queimam “bibliotecas de Alexandria” para tirar o acesso da humanidade a um alto grau de conhecimento. Apesar da internet não poder ser comparada com uma biblioteca de qualidade, a velocidade e o acesso à informação, hoje, é muito mais democrático e universal que uma biblioteca em um determinado lugar, que priva 90% das pessoas simplesmente pelo acesso difícil. A internet é sim uma grande criação para a humanidade, desde que se mantenha livre e mesmo que tenhamos que pagar nossas contas, enquanto o livre acesso estiver acima de interesse individuais.

O capitalismo já proporciona que ganhemos nosso sustento, não é preciso aleijar a liberdade da internet para que alguns fiquem ainda mais ricos. Se for para fazer algo que seja para o bem de todos, e mesmo sendo demagógico, as pessoas ainda estão atentas a tudo isto, mas é preciso atenção no lobby das grandes empresas e nas manobras políticas interesseiras.

Um caso recente que ilustra claramente esta situação, apesar de ser um grão de areia no deserto, mas que brilhou forte, é o suicídio de Aaron Swartz, criador do RSS, Redit e Creative Commons, se formos ver o que cada um destes serviços representa e que ele os criou entre os 14 e 26 anos, percebemos que vivemos em um mundo onde a dúvida de “quem vai pagar a conta” sempre supera o fluxo das ideias livres, sempre supera a necessidade de privilégio do bem comum, do bem para todos. Vivemos em um mundo onde um juiz do poder judiciário pode decidir por barrar o acesso a livre informação, mesmo quando esta deveria estar de bom senso aberta a todos, pelo simples fato de precisar proteger o “direito a propriedade”.

Mais sobre Aaron Swartz neste artigo super bem escrito, que resume muito bem a situação e que linka com toda sua história: Artigo por Eliane Brum. Este também é interessante: por Tatiana de Mello Dias. Aaron tentou, mesmo que de forma parcialmente equivocada, dar acesso estilo “Robin Hood” a informações que deveriam ser livres, mas que são pagas por grandes universidades americanas. Ele fez download de uma grande quantidade destes dados pagos, no ambiente da universidade, e provavelmente os tornaria livre, quebrando a propriedade particular de alguns. Estava sendo julgado e poderia ter que cumprir 35 anos de prisão e uma multa de um milhão de dólares, pena extrema diante dos “delitos” cometidos. Sentindo-se extremamente oprimido, não suportou e se suicidou. Vale a pena a leitura dos artigos mencionados pois explicam melhor sua história e o quanto o sistema oprime quem tenta manter a informação mais livre e acessível.

No final das contas, o que faz com que o “direito a propriedade” ganhe inclusive quando o “bem de todos” deveria ser observado? O velho ditado já explica tudo: enquanto existirem homens de bem que não façam nada, não adiantará coibir os homens maus. Ou seja, nossa sociedade peca por omissão, porque todos estão preocupados em “pagar suas contas” e quando surgem alguns que querem tentar manter a informação livre para o “bem de todos”, são oprimidos pelo sistema que age assim porque não é vigiado pela sociedade.

Encerro com duas citações da reportagem de Eliane Brum sobre Aaron Swartz, que acredito resumir muito bem esta situação:

Talvez o maior ato político de Aaron tenha sido o que fez com seu talento. Ele usou-o para lutar pelo acesso livre ao conhecimento, via internet. Isso, em si, já o tornaria perigoso para muitos. Mas há algo que pode ter soado ainda mais imperdoável: Aaron não queria ganhar dinheiro com o seu talento. Ele não era aquilo que as crianças são ensinadas a admirar: um jovem gênio milionário da internet, como Mark Zuckerberg, o criador do Facebook. Aaron Swartz era um jovem gênio que não queria ser milionário. E, convenhamos, nada pode ser mais subversivo do que isso.

Quando lemos o que Aaron Swartz escreveu, ouvimos o que disse, ele que acreditava tanto em mudar o mundo, é difícil não pensar: por que ele desistiu de nós, ele que acreditava tanto? Que mundo é esse que criamos, onde alguém como Aaron Swartz acredita não caber? Então, é isso. Ele nos deixou sozinhos no mundo que legamos à sua geração. Entre os tantos feitos admiráveis deixados por Aaron em sua curta trajetória, ao morrer ele deixou também um outro legado: a denúncia do nosso fracasso.

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